Redução dos objectivos de produtividade enquanto adaptação às Alterações Climáticas

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As alterações climáticas resultam num aumento da temperatura que pode ser vantajoso, pois permite que as uvas amadureçam. No entanto as uvas também podem ficar demasiado expostas e há sempre o risco de stress hídrico. Garcia de Cortazar (2006) demonstrou que os efeitos no comportamento da vinha em termos de produtividade e composição das uvas serão certamente muito marcados pelas alterações climáticas na região mediterrânica. A produtividade, e consequentemente os rendimentos serão afectados negativamente, pelo que se pode levantar a questão sobre se deve essa produtividade ser reduzida para limitar o risco de stress hídrico? Ou pelo contrário, é a produtividade afectada pelo impacto das alterações climáticas?

O objectivo de produtividade é o valor que o viticultor deseja atingir, ou não exceder, se existir um rendimento limite da denominação. Este objectivo de produtividade irá definir as escolhas culturais do viticultor, como por exemplo o desbaste. Um estudo em Languedoc-Roussillon (Payan, 2018) não pôde concluir um efeito significativo e regular da carga de uvas sobre o stress hídrico da vinha, uma vez que as diferenças de comportamento entre anos e castas são muito grandes. Os resultados apresentados sugerem que o efeito da carga de uva sobre o stress hídrico é negligenciável. A carga de uva, e portanto a produtividade, é regulada por desbaste manual antes da floração ou no final da frutificação. Para 4 cachos por videira considera-se uma "carga baixa" e 14 cachos por videira representam uma "carga alta". As medições de produtividade feitas na colheita para o método de "carga baixa" variam entre 30 a 50% da referência de "carga alta" (80 hL/ha é o máximo teórico para os rendimentos mais elevados).

As recentes mudanças na produtividade, geralmente para baixo, podem ter várias origens:

   - Efeitos directos das alterações climáticas com maior evapotranspiração, reduzindo o tamanho dos bagos.
   - Mudanças nas práticas de cultivo: mudança das castas para as de maior qualidade mas menor rendimento. Por exemplo, segundo Zebic (2011), a mudança de castas no Hérault nos últimos 10 anos pode explicar uma queda de 8,6% no rendimento). Outras mudanças de práticas incluem a redução do número de videiras plantadas, perda de conhecimento na poda respeitosa das videiras (o que leva a doenças), stress de azoto induzido por uma queda na fertilização e/ou relvamento.
   - Desenvolvimento de doenças do lenho que assolam as vinhas e alteração no padrão de incidência de outras doenças (novas doenças decorrentes de mudança no clima).

As alterações climáticas são responsáveis por uma pequena parte da queda nos rendimentos que pode ocorrer na região mediterrânica. De facto, outros factores, tais como mudanças de práticas, são também responsáveis. A redução dos dos objectivos de produtividade não parece ser necessária porque a carga de uvas não tem qualquer efeito sobre o stress hídrico da videira, de acordo com o estudo citado. Por outro lado, dependendo do momento do stress hídrico, pode existir um impacto na produtividade de acordo com Levin et al (2020) como pode ser visto na figura 1. A sua conclusão é que graves défices de água pré-maturação reduzirão o tamanho das bagas durante a estação actual, e o número de cachos por videira para as estações seguintes, afectando a diferenciação das inflorescências nos botões latentes em formação (Deloire, 2020).

 

Figura 1: O momento em que ocorre o défice de água vai determinar os efeitos sobre a produção tanto na estação actual como na seguinte.

 

Pode-se concluir que a produtividade (traduzida pela carga de uva) tem um impacto negligenciável no stress hídrico e, portanto, não precisa de ser reduzida. No sentido inverso, a produtividade é afectada pelo stress hídrico causado pelas alterações climáticas.

 

Autor: Maddy Tintinger (INRAE)

Referencias :

Boutin F., Payan J.C., 2012. Viticulture et changement climatique : adaptation de la conduite du vignoble méditerranéen. Innovations Agronomiques, INRA, 25, pp.193-203. ⟨hal-02647254⟩ (https://www6.inrae.fr/ciag/content/download/3826/36242/file/Vol25-14-Boutin.pdf)

Deloire, A., Jaillard, B., Pellegrino, A., Metay, A., Pantin, F., Romieu, C., Ojeda, H., Abbal, P., Carbonneau, A., Torregrosa, L., 2020. Traité de la vigne.

Levin, A.D., Deloire, A., Gambetta, G.A., 2020. Does water deficit negatively impact wine grape yield over the long term? Technical Reviews. https://doi.org/10.20870/IVES-TR.2020.4029

Payan, J.-C., Salançon, E., 2018. Effet de la charge en raisin sur la contrainte hydrique de la vigne. IFV - Institut Français de la Vigne et du Vin. http://www.vignevin-occitanie.com/wp-content/uploads/2018/08/ContrainteHydrique_JCPayan.pdf


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